Editorial |
O grito dos Inocentes O policial militar Gevani Carvalho matou o garoto Pedro Henrique Queiroz e não se desculpou porque não há desculpa para a falta de preparo dos militares que trabalham nas ruas e certamente vão continuar matando e roubando a vida de inocentes.
O tcheco Franz Kafka escreveu no méis límpido alemão, embora tenha sido traduzdo, no Brasil, por um jornalista de nome Torrieri Guimarães, “do original inglês”. Trata-se, lógico, de uma tradução indireta, por vezes sem captar as nuances do texto complexo do autor de “O Processo” e “A Metamorfose”. No domingo, 7, Pedro Henrique e sua mulher Pabline do Valle, de 21 anos, voltavam da festa de batizado de seu filho, Davi, de 7 meses, na companhia de Marcos Cezar Teixeira de Oliveira, de 23 anos, que dirigia seu Renault Clio. Pabline conta que, por ter errado o caminho de sua residência, Marcos Cezar freou o automóvel, de modo brusco, e, de repente, eis Kafka, o absurdo, o imponderável: um tiro mudava, para sempre, a história de uma família. Ao ver o veículo frear o veículo bruscamente, cantando pneus, o soldado Gevani Carvalho da Silva, que estava a serviço da Superintendência Municipal de Trânsito, sacou o revólver e atirou. Na sua versão, atirou para acertar o pneu do carro e, assim, faze-lo parar. Mas não. O soldado Gevani parece ter mirado um pouco mais acima do pneu, pois o tiro acertou a cabeça de Pedro Henrique, que, levado ao Hospital Santa Mônica, morreu na quinta-feira, 11. A própria Polícia Militar, por meio do coordenador do Núcleo de Comunicação Social, tenente-coronel Sérgio Massatoshi Katayama, admitiu que o soldado Gevani errou. Por que Gevani atirou, acertando, de uma só vez, Pedro Henrique e a imagem da PM? À Polícia, o soldado admitiu que não recebeu nenhuma ordem para atirar, embora estivesse, naquele momento, subordinado ao cabo Marcelo Sérgio dos Santos.
Gevani matou um inocente, que não estava em conflito com a PM ou com a sociedade e não oferecia nenhum risco, mas, como vai dizer seu indefectível advogado, não tinha a intenção de matar e, por isso, mesmo que seja condenado pela Justiça, não receberá uma pena pesada (vale frisar que o major Davi Dantas, acusado de matar o médico Marcelo Pacheco, até agora não foi levado a julgamento. Para o bem-estar da civilização, é decisivo que os conflitos entre os homens sejam resolvidos pela Justiça, não pelas armas, ainda que Gevani tenha usado uma arma, para, desrespeitando as regras da própria instituição à qual é subordinado, matar um ser humano. Violência fora das campanhas
Neste momento, os candidatos a prefeito e vereador de todo o Brasil estão preocupados com propostas para mudar tudo, mas não raro se esquecem de que é preciso pensar não apenas na violência, em ações duras contra os criminosos. É preciso entender que os policiais, militares e civis, precisam de maior qualificação profissional e, mesmo, precisam temer as leis. Disseram, durante a ditadura civil-militar, que o perigo não era o general, e sim o guarda da esquina. Como se viu, no caso do garoto Pedro Henrique, que mal havia saído da adolescência e formara-se em Direito aos 21 anos, o perigo é mesmo o guarda da esquina, como o soldado Gevani, que, com uma arma nas mãos e sem a qualificação entranhada no seu ser, se tornou um perigo para a sociedade.
Entretanto, enquanto os políticos não querem discutir a violência, porque é um tema convencional, do qual todos estão aparentemente enjoados e avaliam que não há solução a longo prazo, a sociedade, especialmente em momentos de crise extrema, como a morte de um inocente, discute por si mesma. Aliás, é mais um grito contra a impotência coletiva, um clamor de que é preciso fazer alguma coisa antes que outras vidas inocentes se percam nas ruas ou mesmo dentro das residências. Durante o velório de Pedro Henrique, no Cemitério Jardim das Palmeiras, e, depois nas ruas, alguns automóveis circularam com uma fotografia do garoto – maior de idade há apenas cinco anos – e uma frase que deveria ser lida com atenção por todos: “Pedro Henrique – Não quero ser mais um”.
A frase é muito séria e deveria ser debatida nos parlamentos, nas universidades e mesmo nos batalhões da Polícia Militar. O correto tenente-coronel Katayama deveria sugerir ao Secretário de Segurança Pública, Ernesto Roller, um advogado competente e permanentemente contra a barbárie, que o tema seja discutido pela polícia. Nos momentos de crise – crescimento em grego – é que assuntos de maior relevância para a sociedade, como a paz no trânsito, o convívio harmônico em sociedade e uma polícia mais comunitária e menos violência, devem ser discutidos amplamente. A morte de Pedro Henrique pode-se transformar numa ferramenta educativa.
A mãe de Pabline, Valéria Valle, disse ao jornal “Diário da Manhã”: “A dor é muito grande. Socorro!” O grito de Valéria tem a ver com a dor da filha, que ficou sem a companhia de Pedro Henrique, talvez seu primeiro grande amor, e terá de criar um órfão. Mas, na verdade, deve ser visto como um grito de apelo a todos nós e, também, por todos nós. Há uma sensação de impotência, porque, se a Polícia Militar, que é treinada e paga para proteger os cidadãos de bem, sai matando – e, vale dizer, Pedro Henrique não é o primeiro a ser morto por policiais – a quem recorrer? O grito de Valéria Valle é, por assim dizer, o grito de alguém que, ainda que tenha sofrido um choque tão grande, acredita que é possível fazer alguma coisa, que é preciso confiar em alguma coisa – na Justiça, por exemplo.
A mãe de Pedro Henrique, Maria do Rosário Queiroz, disse, no velório: “Me ajuda, Deus. Eu amo tanto meu filho! Deus me ajude.” De novo, a sensação de impotência. Maria do Rosário deve ser religiosa, mas ao recorrer a Deus, com um pedido de ajuda tão grave, está a nos dizer que alguma coisa está errada no mundo dos homens, que saem por aí matando garotos que querem apenas viver e, como dizem curtir a vida, divertir-se, ter uma família. Nada mais. Os jovens, no geral, querem muito pouco e, por isso, não podem ser privados das ruas.
Licença para matar
O deputado estadual Mauro Rubem, do PT, é tido como radical. E é mesmo. Mas, em algumas questões, tem suas razões. Na sua defesa intransigente da vida humana e no seu combate sistemático à violência policial, Mauro deveria ser ouvido com mais atenção tanto pela própria polícia quanto pela sociedade.
Mauro tem alertado que a Polícia Militar tem matado várias pessoas em Goiânia, sobretudo. Chegou a ser ameaçado por policiais mais virulentos e alguns policiais chegaram a entrar na Assembléia Legislativa para intimidá-lo. O parlamentar petista não se intimidou e continua a defender sua política de direitos humanos. O Jornal Opção discorda de algumas posições de Mauro, principalmente quando se tenta crucificar a Polícia Militar como um todo e desconsiderando que, no confronto contra criminosos armados, o mais justo é preservar a vida dos policiais. Nesse momento, os policiais estão agindo em nome dos cidadãos de bem contra homens que não querem ser cidadãos, e sim párias que, não raro, vitimam indivíduos inocentes. Noutras palavras, quem defende os direitos humanos deve se preocupar em não defender, ainda que indiretamente, os “direitos” dos criminosos. Há de se concordar que o Estado de Direito vale para todos, mas a prioridade absoluta deve ser exatamente aqueles que aceitam e defendem esse Estado de Direito. Entretanto, quando se defende que a Polícia Militar deve ser dura no combate ao crime, na defesa dos cidadãos de bem, não se está a postular que a polícia de vê ganhar licença, ao estilo James Bond, para matar. Porque, se ganha licença para matar, a polícia se torna incontrolável. Assim, começa matando bandidos e, logo depois, estará matando suspeitos e, também, inocentes. Possivelmente, e o direito à dúvida deve ficar explícito – porque o jornalismo, como a vida, não é construído apenas de certezas - , o soldado Gevani só teve coragem de atirar no automóvel onde estava Pedro Henrique porque leu nos jornais ou ouviu na caserna que policiais militares estão matando e não são presos, julgados e condenados. Fica também o benefício da dúvida: Gevani talvez não quisesse matar, e sim apenas assustar, mas não se assusta pessoas atirando. O tenente-coronel Katayama tem razão: Gevani “dizimou uma família”. Construir uma casa e reformar um prédio não são tarefas difíceis, mas reconstruir uma família não é uma tarefa fácil. Demora anos, quando é possível. As feridas cicatrizam, mas volta e meia se abrem. A punição judicial de Gevani é o primeiro passo, porque os indivíduos, até para respeitarem as leis, precisam acreditar, piamente, na seriedade das instituições que são encarregadas de aplicá-las. Agora, resta torcer para que Pabline reorganize sua vida e que o pequeno Davi cresça saudável. Mas, repetindo, Pabline e Davi só vão acreditar no País se Gevani receber a punição judicial compatível com seu crime. Não se deve atribuir ao acaso a morte de Pedro Henrique, mesmo que não houvesse intenção de matar. O mundo ficará menos Kafkiano, em alemão ou em português, se Gevani for julgado decentemente.
Euler Belém é
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