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Sou irmã do Roberto, pai do Pedro Henrique.
Nós formamos uma família grande e unida. Somos 9 irmãos. Tenho 24 sobrinhos (agora 23), 7 sobrinhos netos e 1 sobrinho bisneto.Meus pais já são tataravós.
A família da mãe do Pedro também é muito unida. Convivemos juntos desde que eu era bebê, quando meu irmão começou a namorá-la.Há quase 40 anos...
Caçula de sua casa, Pedro sempre foi alegre, brincalhão e amoroso. Tinha uma alegria de viver e viveu intensamente. Foi rápido em tudo. Formou-se cedo, casou-se cedo e foi pai cedo, como se pressentisse que não teria muito tempo de vida.
Apressou-se em viver da melhor forma possível. Quero contar uma passagem de nossas vidas, pois as pessoas vêem as fotos estampadas nos carros, nas camisetas e cartazes e dizem: “Nossa como ele era lindo...”
Eu gostaria que cada um de vocês soubesse como ele era lindo também por dentro.Como a família é muito unida, costumamos passar os domingos na chácara da minha irmã. Num desses domingos realizamos um campeonato de vôlei, com direito a medalhas e troféu. No primeiro jogo do dia, eu caí e me machuquei. Pedro Henrique se ofereceu para me levar ao hospital. Ficamos uma boa parte do dia lá, entre consulta, radiografia, até engessarem meu pé. Eu estava preocupada com ele, perdendo os jogos e as brincadeiras na chácara. Todos estavam lá jogando, se divertindo, nadando, e ele comigo, preso em um hospital. Mas o tempo todo Pedro continuava tranqüilo, brincalhão. E falava: “Tia, não preocupa não. Tá tudo bem”. Quando voltamos para a chácara o campeonato já tinha acabado. As medalhas já tinham sido entreguese os familiares estavam comemorando. Ele perdeu boa parte deste domingo comigo no hospital, e esteve o tempo todo tranqüilo e feliz.
Pedro formou-se em Direito no final do ano passado.
Completou 1 ano de casado no sábado, dia 06 de setembro.
No domingo, dia 07 de setembro, batizou Davi, seu filho de 7 meses.Neste mesmo dia comemorou o batizado o dia todo com familiares e a noite foi jantar na casa de sua sogra, com a esposa.
Às 20:30, quando voltava para casa, já quase chegando, ele, que estava com sua esposa de carona com um amigo, foi atingido por um policial que prestava serviço para a SMT.
A arma que o atingiu era de calibre 40. A bala era dum-dum, e explodiu sua cabeça. O meu sobrinho não estava dirigindo, estava de carona.
Pedro era um rapaz tranqüilo, alegre, amoroso e extremamente bom. Muito família, e extremamente responsável.
Sua vida estava praticamente iniciando... Ele, que sempre foi carinhoso e brincalhão com os primos, amigos e irmãos, foi privado de curtir a infância de seu filho Davi. Não vai vê-lo dar os primeiros passos e andar. Não vai vê-lo falar as primeiras palavras e contar os casos da escola. Não vai ensiná-lo a jogar bola, a subir na jabuticabeira, entre tantas outras coisas... Por que foi acontecer isto com ele?
Por que? Eu que sou católica e creio em DEUS, cheguei a questioná-Lo. Senhor, por que?
Ele estava começando a vida... O Padre Alcides, na missa de 30º dia de falecimento do Pedro Henrique, disse sabiamente:_ As pessoas quando nos encontram em um momento desses, nos dizem: _ foi DEUS que quis assim...
Mas isso não é verdade.
DEUS não quis isto.
Quem quis isso foi o policial despreparado que atirou em sua cabeça. Por que sacar a arma, atirar, e nem se dar ao trabalho de socorrer?Por que os responsáveis pela nossa segurança consideram um ato desses como uma “fatalidade”?
Por que temos que aceitar o assassino dizer que estava fazendo o seu trabalho, quando na verdade seu trabalho era nos proteger?
Por que um policial a serviço da sociedade, recebendo para protegê-la, atira em um cidadão de bem, que nada fez e que nunca apresentou risco a ninguém ?
Por que os policiais podem trabalhar nos seus dias de folga, dobrando turnos para ganharem mais, e, o que é ainda pior, armados e sem preparo para atuar na função no trânsito?
Por que, Por que, Por que?
São tantos porquês... Por que a família,apesar do sofrimento, ainda sai em carreatas, passeatas, colhe assinaturas e participa de eventos, relembrando o fato a todo momento, prolongando sua dor e sofrimento ?
Fazemos isto, para que este caso não seja só mais um!
Fazemos isto, para que a justiça seja feita.
Mesmo sabendo que o policial que atirou em meu sobrinho e tirou-lhe o direito de viver está de férias, ainda acreditamos que nossas autoridades tratarão este caso de uma forma diferente, punindo os culpados e não deixando que se torne apenas mais um caso de impunidade.
Lucia Amelia de Queiroz
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